O ano de 2022 marca o bicentenário da independência política do Brasil. As ocasiões de efemérides são oportunas para a produção de reflexões sobre o país e a sociedade que somos: as origens, caminhos trilhados, desafios existentes, modos de pensar e agir.
Um tópico oportuno de análise nesse momento diz respeito as crenças religiosas que historicamente veem fornecendo a população brasileira visões de mundo, seu impacto nas formas de estruturar as relações sociais entre as pessoas e até mesmo influir as pautas políticas.
A população brasileira, no quesito das crenças religiosas, é majoritariamente cristã. Contudo, essa realidade possui uma explicação histórica e política. Quando os portugueses chegaram nas terras onde hoje é o Brasil, no início do século XVI, os povos originários possuíam crenças religiosas de índole politeísta e ligada a elementos da natureza.
No processo de conquista e colonização do território os portugueses impuseram aos povos não cristãos o catolicismo como única religião aceitável, apresentada por eles como a verdadeira e correta religião. Esse processo de difusão do catolicismo no Brasil foi uma política de Estado que foi tida como prioritária na medida que a Reforma Protestante avançava na Europa no século XVI, algo tratado como ameaça e heresia pela Igreja Católica e os povos que se mantinham fiéis ao catolicismo, como era o caso de Portugal.
Os povos indígenas que foram incorporados ao ordenamento colonial pelos grupos religiosos, especialmente os jesuítas, foram sendo evangelizados em aldeamentos e reduções. Em relação aos povos que vieram do continente africano também se almejava a conversão ao catolicismo, ainda que a dinâmica do mundo do trabalho escravo tenha tornado essa dinâmica distinta da reclusão em reduções. Mas o ideal de conversão era a tônica.
Assim, a sociedade colonial brasileira foi sendo moldada nos quadros do catolicismo, ainda que a prática religiosa da população nem sempre correspondesse com o discurso das autoridades religiosas. Ainda assim, religiões não católicas eram condenadas como “coisas do demônio” e combatidas. A Inquisição portuguesa fez visitações ao Brasil nos séculos XVI, XVII e XVIII para verificar a “pureza” da fé católica da população. Inúmeras pessoas acabaram presas e condenadas pelos inquisidores, especialmente os cristãos-novos, judeus ou descendentes de judeus convertidos ao catolicismo.
A independência do Brasil em 1822 foi acompanhada de um projeto definidos pelas elites políticas e intelectuais de construção de uma nação católica, vide a Constituição de 1824 que estabeleceu o catolicismo como a religião oficial do país. Ou seja, ser brasileiro deveria ser sinônimo de ser católico. No primeiro Censo do país, de 1872, 99,72% da população foi classificada como católica e 0,28% como “acatólica”. Uma leitura que se pode fazer da expressão acatólica é que aos olhos da elite dirigente da época não se concebia uma alternativa religiosa ao catolicismo para os súditos do Império brasileiro.
Ao final do século XIX com o advento do regime republicano e a Constituição de 1891 os novos grupos políticos que ascenderam ao poder estabeleceram o princípio da laicidade do Estado e a liberdade de culto religioso. Apesar disso, o catolicismo continuou sendo a religião da maior parte da população, de forma maciçamente hegemônica até fins do século XX. Por outro lado, nem todas as crenças religiosas eram respeitadas pelo poder público e a sociedade, como era o caso das perseguições feitas às religiões de matriz africana.
Após o baque inicial de perder o status de religião oficial do país, a cúpula da Igreja Católica no Brasil passou a desenvolver ações de militância com o objetivo de ter influência política nos governos republicanos. Isso ganhou força na década de 1920 e começou a gerar frutos mais consistentes no decênio seguinte, como a conquista do estabelecimento de ensino religioso facultativo nas escolas públicas e a proibição legal do divórcio.
Mas nas últimas décadas o perfil religioso da população brasileira passa por mudanças. Isso começou a ganhar força a partir da década de 1980, quando o país se tornou predominantemente urbano e o acesso à informação se dinamizou. No Censo do IBGE de 1980 os católicos eram 89% da população. Caíram para 64,63% no Censo de 2010. Os evangélicos eram 6,6% da população em 1980 e chegaram a 22,16% em 2010. Os sem religião, incluso ateus e agnósticos, aumentaram de 1,6% para 8,04% entre 1980 e 2010.
O que se verifica a partir dos dados do Censo do IBGE é que a maior parcela da população brasileira continua adepta da fé cristã, agora mais dividida entre católicos e evangélicos. Já em termos políticos o país presencia atualmente um ativismo de grupos evangélicos visando influenciar nos destinos da população a partir de preceitos religiosos, o que faz recordar o ativismo de décadas passadas da Igreja Católica, especialmente com eleição de candidatos evangélicos nos legislativos e executivos do país. O ponto alto até o momento foi a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, defensor de pautas evangélicas conservadoras.